A Educação Física, os Esportes e as Mulheres: Balanço da Bibliografia Brasileira

Por: Fúlvia Rosemberg.

Corpo, Mulher e Sociedade.

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Resumo

A partir(. .. ) do séc. XVII, sabe-se que há duas maneiras de existir, e somente duas: ou se existe como consciência e, portanto, como sujeito presente a si mesmo através da reflexão, ou se existe como corpo. Isto é, como um conjunto de processos neurofisiológicos na terceira pessoa do singular. A consciência é a primeira pessoa do singular. Ela define a subjetividade, ela define o ego, e o corpo define os acontecimentos físicos e mundanos do sujeito ( ... ) essa tematização do corpo implica, de maneira suti~ em dar à consciência um lugar privilegiado, na medida em que a consciência é intelecta, a consciência é produção de conhecimento e a consciência é a pessoa moral. O pensamento ocidental, tanto o conservador, quanto o reformista e o progressista, deu à consciência um papel privilegiado. Isso implicou, de maneira sutil e implícita, na desvalorização do corpo. Marilena Chauí

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... Sem dúvida é a dissertação de mestrado de Laércio Elias Pereira (1984 ). defendida na USP, o texto brasileiro mais completo e pertinente que encontramos sobre mulher e esporte. Apesar de propor um objetivo específico — a influência dos agentes de socialização em atletas universitárias —, o autor esboça um diagnóstico sobre a prática esportiva feminina no Brasil, os preconceitos que vem enfrentando e as alternativas para sua superação. Nota-se uma preocupação do autor em contextualizar suas observações nos planos econômico e cultural e um compro-metimento com a mudança. Merece destaque o capítulo sobre esportistas negras. 

Apoiando-se em bibliografia estrangeira, Pereira (1984) mostra que, para as mulheres, a conquista do campo esportivo segue o social: a possibilidade de se exercitarem fisicamente, as transformações no vestuário, o aperfeiçoamento dos absorventes femininos que, "da antiga toalha higiênica, ao discreto absoivente interno colaborou para a desinibição da mulher esportiva -- e das mulheres em geral — durante o ciclo menstrual" (p. 5). 

O autor propõe, também, uma revisão do que sejam esportes femininos e masculinos: 
        em busca do chamado culto da graciosidade e da beleza a sociedade acaba elegendo,    através da aparência, os esportes que devem ser adequados às mulheres. Os pesquisadores terão muito a oferecer quando apresentarem estudos sobre estes esportes, já que entre os leves e os delicados estão, por exemplo, a ginástica olímpica — um esporte de alto risco e elevada exigência física — e a patinação que, analisados desde este ponto de vista, poderiam receber a pecha de masculinos. (Pereira 1984, p. 6) 

Analisando a participação de mulheres nos Jogos Olímpicos, Pereira considera que ela é diretamente relacionada ao desenvolvimento econômico do país e ao alto elitismo desse evento. Fechando o leque que abriu, o autor se detém na prática esportiva em contexto escolar: os Jogos Estudantis Brasileiros (JEBs) e o esporte universitário. Quanto à presença relativamente mais intensa das mulheres nos JEBs que nas demais competições esportivas, o autor justifica por meio da instituição de troféus olímpicos ou contagem geral de pontos que impulsiona as escolas a se inscrever no maior número possível de modalidades, o que acaba por abrir brechas para meninas e adolescentes. Quanto ao esporte universitário, tomamos conhecimento pela dissertação de Pereira (1984) que a invasão da União Nacional dos Estudantes (UNE) e a queima de seus arquivos em 1964, logo após o golpe militar, dificultam qualquer pesquisa histórica, pois ali também se situava a sede da Confederação Brasileira de Desportos Universitários. 

Da mesma forma que Tina Amado (1990) assinala a omissão de referência sobre as mulheres nas pesquisas sobre história da educação, Pereira indica que os dois principais textos sobre a história da EF e dos esportes no Brasil (Adolpho Sterman 1954 e lnezil Penna Marinho 1955) não mencionam o esporte universitário feminino. Pereira assinala: 
        a participação de mulheres no esporte universitário tem sido decorrente de iniciativas isoladas e é, em grande parte, duplicação de atividades atléticas de mulheres que já participaram dos campeonatos das federa-ções específicas, sendo os Jogos Universitários estaduais ou nacionais mais uma competição dessas equipes. (p. 30) 

Portanto, o avanço seria apenas aparente. 

Procurando compreender a pequena proporção de mulheres negras entre as esportistas, Pereira (1984) tece sua argumentação em torno de esportes masculinos e femininos: os esportistas negros tiveram maiores chances através do futebol. As modalidades femininas — natação, ginástica olímpica — interpõem barreiras eivadas de preconceito racial. A performance em ginástica rítmica e olímpica é avaliada, também, por critérios subjetivos como "graça e beleza". O autor sugere: "Seria interessante termos, no Brasil, um estudo sobre padrões de beleza — e racismo — dos juízes de ginástica comparados com os resultados das provas com julgamento desses mesmos juízes" (p. 33). 

O objetivo central da pesquisa — avaliar o impacto dos agentes de socialização em atletas universitárias — foi operacionalizado pela aplicação de uma adaptação do questionário elaborado pelo pesquisador norte-americano Greendofer. Esse questionário procura avaliar o impacto de quatro classes de variáveis na orientação esportiva observada entre certas mulheres: atributos pessoais; agentes socializantes; situações socializantes; envolvimento esporti-vo. O questionário foi aplicado em 120 atletas mulheres com idade entre 15 e 31 anos. A análise das respostas ao questionário permitiu ao pesquisador concluir que "o primeiro envolvimento esportivo deu-se na infância, através de atividades coletivas e sob a influência da escola, contrariando as expectativas de influência familiar '(p. 68). 
Rosemberg e Pinto (1985) chegaram a uma conclusão semelhante com base em dados divulgados em relatórios publicados pelo MEC (Retrato Brasil s/d.). Analisando uma avaliação efetuada por ocasião do 11 JEBs, as autoras observam que um número maior de moças que de rapazes atletas haviam iniciado a prática de esportes na escola. As pesquisadoras integram essa obser-vação a outras efetuadas no transcorrer do livro e orientam-se no sentido de considerar a escola uma instituição privilegiada para diversos tipos de aprendi-zagens e experiências femininas. Concluem que a proteção que a escola oferece para a mulher, associada à maior restrição à liberdade de ir e vir que sofrem meninas e adolescentes em decorrência de uma educação mais repressiva e do medo da violência urbana, seria explicação plausível para essa associação entre escola e iniciação feminina nas práticas esportivas. 

Essa observação (ou tendência) — de que meninas e adolescentes mais que meninos e rapazes iniciam-se nos esportes em contexto escolar -- necessita destaque. Constitui um indicador do espaço privilegiado da escola na vida das mulheres, atestado por meio de outros indicadores que vêm sendo insistentemente apontados pela literatura brasileira c estrangeira (Roscmberg et al. 1990; Baudelot e Establet 1992), como por exemplo o fato de que o número de estudantes mulheres tende a ultrapassar o de homens (especialmente no 2') grau) e que as mulheres se saem melhor na escola que os homens (índices inferiores de reprovação e evasão). 

Esses indicadores contrariam uma tendência generalizada de se conside-rar simplesmente que a escola seja sexista ou que reproduza estereótipos sexuais. Para a produção brasileira não há qualquer menção de que a escola possa constituir-se em espaço social onde as mulheres vivam, dc forma menos acentuada, as subordinações de gênero. Se meninas e jovens se saem melhor na escola é porque sua cultura privilegia comportamentos passivos que se coadu-nam com o repertório feminino tradicional. Se as meninas, adolescentes e adultas, evidenciam prazer ao freqüentar a escola, ou se procuram novos cursos (como pós-graduação), ou se voltam para a escola depois de casadas é porque, afirma nossa produção, não dispõem de outros canais de sociabilidade, ou porque necessitam se superqualificar para concorrer ao mercado de trabalho. Mariano F. Enguita (1989), autor espanhol, propõe uma perspectiva analítica mais nuanciada, sugerindo que, comparativamente à família, ao mercado de trabalho ou à esfera político-partidária a escola seria, na atualidade, o espaço social menos sexista. 

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7. Cavasini e Massudo (1980) chegaram a resultados parcialmente diversos pesquisando atletas a partir de 11 anos de ambos os sexos. É notável a maior proporção de mulheres que responderam terem tido uma "autodeterminação" na motivação para prática esportiva. 
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